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24 Dezembro 2011

O deus ateu mortal

Volto à recente morte de Kim Jong-il, ex-líder da Coreia do Norte. E volto porque não fiquei indiferente às cenas de pranto coletivo que invadiram as ruas da capital norte-coreana nos dias subsequentes ao falecimento do ditador - por todo o lado, enormes e organizadas massas se dedicavam a um lamento raramente visto quando se trata de um chefe de estado.

Por vezes, assistimos a pesar devido ao luto por alguém que é uma figura pública. Mas, como neste caso estamos a falar de alguém que liderou uma nação com um inflexível braço de ferro, oprimindo severamente os seus concidadãos, em particular aqueles que ousavam emitir (sequer ter...) uma opinião divergente, as cenas que vimos de profundo desgosto poderão causar alguma surpresa. A não ser que olhemos para a questão na mesma perspetiva que o farão os norte-coreanos...

Um artigo da CNN defendeu que essas manifestações públicas seriam motivadas pelo temor, medo do aparelho governativo. Num ambiente onde tudo é punido sem misericórdia, surge aqui uma boa oportunidade de, ainda que falsamente, demonstrar respeito, até veneração, pelos líderes, mesmo que lá no fundo esteja um sentimento de revolta, no mínimo grande insatisfação para com os déspotas que os governam.

Admito que isso aconteça. Não me parece uma ideia estranha, e creio que faz toda a lógica. Mas gostaria de sugerir uma outra outra postura, não necessariamente alternativa mas até mesmo complementar.

Kim Il-sung, o primeiro líder norte-coreano após a fundação do país em 1948, criou uma ideologia própria (chamada Juche) que dificilmente encontra muitos pontos paralelos pelo mundo fora. Para além das bases e fundamentos comunistas, Kim estabeleceu um verdadeiro culto de personalidade, onde ele próprio era motivo de única e especial adoração pelas suas (sempre exageradas) capacidades, quer físicas ou inteletuais.

Transformou-se desta forma, principalmente pela propaganda associada à opressão, num líder perfeito, infalível e supra-sabedor. Assim, em essência, Kim tornou-se um deus aos olhos dos norte-coreanos.

Esse legado foi passado durante as décadas seguintes até aos dias de hoje; as crianças (hoje adultos e quase idosos) foram progressivamente formatadas nesse sentido pelas escolas do regime. E em 1994, com a morte de Kim Il-sung, o deus passou a ser Kim Jong-il.

Ali, nunca houve opção para além desta - as vozes dissidentes eram rapidamente silenciadas, e, dentro de fronteiras, a ideologia passava sem problemas de maior.

Agora, imagine como se sentiria se o seu deus falecesse. Aquela figura revestida de todo o poder, caraterizada com todos os traços possíveis e imaginários da perfeição, por alguma razão, certamente antes não explicada, deixasse de existir...

Faria sentido o pranto doloroso evidenciado nas expressões dos norte-coreanos? Eu creio, com certeza, que sim.

Por isso, sou capaz de conceber alguma, mesmo muita, sinceridade em alguns dos que se exibiram nas imagens que vimos. Tinham perdido o deus que admiravam, o sentido imposto das suas vidas.

Como conforto para o povo, novamente, temos que já foi eleito um sucessor, no caso o filho Kim Jong-un, já identificado como possuidor dos mesmos atributos do pai e do avô - ou seja, ele é o novo deus.

Não posso deixar de lançar-lhe um desafio: pense se, à volta do mundo, no domínio do cristianismo, existe alguém que desde há muito se comporte de maneira idêntica: entronizado por vontade e imposição própria num altar de majestade e superioridade, exercendo um domínio que não se presta a ser colocado em causa e se necessário use de força brutal para derrubar vozes contrárias. E que, caso desapareça, logo é substituído por outro líder com as mesmas atribuições.

A única diferença é que, neste caso, existe um manto de cristianismo para disfarçar propósitos.

Consegue fazer este exercício? Não deve ser difícil...

Kim Jong-il, prova-se agora, não passava de um deus ateu mortal; num futuro não muito distante, provar-se-á ainda que há muito tempo o mundo ocidental, dito civilizado, convive e aprova um falso deus cristão, mas também mortal.

1 comentários:

Raphael disse...

A primeira ideia que tive ao ler o título do artigo é que o personagem a ser analisada seria... Christopher Hitchens! Afinal, ele era um dos "deuses" dos ateus ao redor do mundo, e deixou-os há poucos dias. De qualquer forma, sua visão é muito apropriada. Durante a licenciatura, tive a satisfação de ler Ernest Gellner, defensor da tese de que o comunismo foi uma grande religião secular. Para o autor, a causa do colapso dessa religião não foi "a eliminação do transcendente, mas a super-sacralização do imanente." É pena que no último bastião do estalinismo essa religião tão radical não dê sinais de desgaste.