Tendo nascido numa família adventista do 7º dia (fato que só em plena juventude tomei consciência ter sido um enormíssimo privilégio!), cedo na minha vida comecei a ouvir falar da chamada “crise final” que o mundo e em particular a Igreja haveriam de viver imediatamente antes da Segunda Vinda de Cristo à Terra.
Recordo-me muito bem de algumas reuniões de pôr do Sol, quer às sextas-feiras quer aos Sábados, na Missão Adventista do Quicuco, em Angola, corria o ano de 1974, onde eu e os meus pais nos reuníamos em casa do Pr. José de Sá e este fazia a leitura de um capítulo em cada reunião, de um livro que tinha recentemente saído do prelo, intitulado “Preparação para a Crise Final”, do autor Fernando Chaij.
Com os meus 11 anos de idade, aquelas leituras suscitavam-me uma certa apreensão e na minha mente ficou apenas um quadro muito negro dos acontecimentos finais. Anos mais tarde, em 1991, no meu primeiro ano de Teologia em Collonges, eu viria a descobrir, por mim próprio, a incrível riqueza contida na mensagem desse livro supra-citado, que se tornou o paradigma para a minha compreensão das Escrituras e dos acontecimentos atuais. À parte da Bíblia, creio poder afirmar que nenhum outro livro exerceu uma maior influência em mim do que esse!
Após um estudo muito aprofundado desse livro, a minha visão negativa dos acontecimentos finais transformou-se numa visão altamente positiva!
Tomei plena consciência de dois factos fundamentais: quem aprendeu a conhecer pessoalmente Jesus Cristo na sua vida, não consegue mais ter medo do que quer que seja, incluindo os acontecimentos finais, pois “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31). Ou dito à maneira do salmista: “O SENHOR está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem?” (Salmo 118:6); “Se Deus é por nós”, como afirmou o apóstolo Paulo, e se Ele entendeu por bem revelar-nos de forma tão detalhada os acontecimentos finais, então é porque esta informação é uma forma de Deus demonstrar, de forma bem prática e tangível, que quer o bem do Seu povo!
Há pessoas que tudo dão ou dariam para saber um pouco daquilo que o futuro lhes reserva! Infelizmente aquilo que obtêm é de fonte corrupta e malsã.
Concordo com Fernando Chaij, quando ele afirma: “Quão afortunados somos, os adventistas, de que o Espírito de Profecia nos haja provido janelas pelas quais podemos obter uma visão clara do que espera a igreja e o mundo nas cenas que têm que ver com o apogeu do grande conflito apresentado na Palavra de Deus e nos escritos que temos ante nós hoje! Enquanto o mundo estremece de temor pela incerteza do amanhã, nós conhecemos o tempo. Os filhos de Deus, associados nesta viagem maravilhosa que realizam juntos para a meta final, têm também um mapa admirável – a Bíblia – e um itinerário preciso – as profecias inspiradas.”(1)
Qual a natureza da crise final?
Não quero, nem consigo, no contexto deste artigo, dizer tudo o que até agora aprendi com o estudo das profecias escatológicas(2). Vou antes debruçar-me sobre um aspeto muito específico da compreensão geral que se tem sobre os acontecimentos finais: de uma maneira geral, todos nós (e eu fui um deles!) temos uma visão catastrófica dos acontecimentos finais! Na nossa mente imaginamos apenas e só o caos completo a reinar por todo o planeta! Mas será que esta visão catastrófica corresponderá mesmo à realidade dos fatos? Pois bem, vi-me forçado a chegar à conclusão de que assim não será, ou seja, embora haja, sem dúvida alguma, uma estupenda crise, essa crise não afetará a sociedade humana do modo como muitas vezes imaginamos!
Vamos analisar, para começar, o seguinte texto bíblico, que encontramos em Lucas 17:26-30: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do homem: comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos. O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos. Assim será no dia em que o Filho do homem se manifestar.”
Uma grande lição, penso, que podemos retirar destas palavras de Cristo é tomarmos consciência de quão verdadeiras foram as palavras do sábio Salomão: “O que foi é o que há-de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Eclesiastes 1:9-10).
Segundo o próprio Jesus, aquilo que basicamente se fará na sociedade humana, à escala mundial, antes da Sua segunda vinda, será exactamente o mesmo daquilo que se fez na sociedade antediluviana e na sociedade sodomita! Decorridos tantos séculos de civilização, far-se-á o mesmo que se fazia!(3)
Outra grande lição é esta, que nos interessa mais para este nosso estudo: as atividades humanas do tempo do fim serão tantas e tão diversificadas, que dificilmente podemos imaginar que elas se poderão realizar num contexto catastrófico! Será possível “comprar”, “vender”, “plantar” e “edificar”, se a sociedade estiver num caos completo? Certamente que não! Por outras palavras, a sociedade mundial apresentará uma economia a funcionar a “pleno gás”! Não só haverá um grande espírito empreendedor, mas existirão igualmente as condições de mercado para que tais iniciativas se concretizem na prática! Far-se-ão inúmeras transacções comerciais, o mundo dos negócios estará no seu apogeu!
As palavras de Jesus permitem-nos ter a certeza de que, olhando de perto para a realidade da sociedade sodomita, isso abrirá a nossa compreensão para o que se passará no fim dos tempos!
Como era a vida em Sodoma? O texto de Ezequiel 16:49 dá-nos uma perceção clara dessa sociedade que foi uma amostra da sociedade global dos últimos dias: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado”(4).
Como é que será, então, a sociedade humana do tempo do fim? Bom, terá “fartura de pão e próspera tranquilidade”! Para que tal fartura e prosperidade existam, não acha que tem de haver mecanismos de produção e de comércio a funcionar em pleno? A sociedade do tempo do fim não será uma sociedade que esteja em crise económica!
Eu diria mesmo que, economicamente falando, ela estará no seu melhor de sempre! Senão vejam o que nos diz o livro de Apocalipse sobre a “mercadoria” que possuirá a sociedade babilónica do tempo do fim: “mercadoria de ouro, de prata, de pedras preciosas, de pérolas, de linho finíssimo, de púrpura, de seda, de escarlata; e toda a espécie de madeira odorífera, todo o género de objeto de marfim, toda a qualidade de móvel de madeira preciosíssima, de bronze, de ferro e de mármore; e canela de cheiro, especiarias, incenso, unguento, bálsamo, vinho, azeite, flor de farinha, trigo, gado e ovelhas; e de cavalos, de carros, de escravos e até almas humanas” (Apocalipse 18:12-13).
Por muito simbólica que esta passagem nos possa parecer ou mesmo ser, uma coisa é certa: ela descreve uma sociedade riquíssima nos últimos dias! Tal como Jesus predisse, ao comparar a sociedade humana do tempo do fim à sociedade de Sodoma, onde havia “fartura de pão e próspera tranquilidade”!
Sabemos que, no tempo do fim, os habitantes de todo o planeta serão confrontados com um decreto, de âmbito mundial na sua aplicação, que interditará alguém de poder “comprar ou vender”, excepto quem tenha a “marca, o nome da besta ou o número do seu nome” (Ap 13:17). Teria algum significado este decreto se não houvesse uma sociedade que tivesse inúmeras coisas para se poder “comprar ou vender”? Caso houvesse uma profunda crise económica, então não haveria nada para “comprar ou vender” e, nesse caso, o decreto que impedirá de “comprar ou vender” seria totalmente irrelevante! Mas este decreto não será irrelevante, pois porá fortemente à prova a fé de cada um, por haver a possibilidade de optar entre ser fiel a Deus e não poder comprar ou vender, ou então renunciar à sua fé para poder gozar dos imensos benefícios materiais que Babilónia terá efetivamente, para melhor poder seduzir!
Se a sociedade dos últimos dias da história da Terra não viverá, como vimos, uma crise económica, então que tipo de crise viverá? A resposta é muito simples: uma enorme crise moral e espiritual! Paulo traçou, de forma bem clara, os contornos dessa crise final, nas palavras que escreveu ao seu “filho” Timóteo(5)! E as palavras de Jesus o confirmam: “E por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mateus 24:12).
Uma sociedade de enormes contrastes
Se a sociedade globalizada do tempo do fim será uma sociedade com “fartura de pão” e “próspera tranquilidade”, significa isso que não haverá nela pessoas em pobreza? Não, de modo algum, bem pelo contrário! Da sociedade sodomita é-nos dito que “nunca amparou o pobre e o necessitado” (Ez 16:49)! Então isto significa que havia “pobres e necessitados” em Sodoma e que a sociedade sodomita, embora vivesse com “fartura de pão” e prosperidade, “nunca amparou” esses mesmos que, no seu seio, eram pobres e necessitados (que contraste escandaloso!).
Jesus disse claramente que “os pobres, sempre os tendes convosco” (João 12:8), o que significa que eles continuarão a existir na sociedade economicamente próspera e com “fartura de pão” do tempo do fim!
E Tiago dá-nos um claro vislumbre da razão pela qual haverá pobres e necessitados numa sociedade tão economicamente rica. Ele diz-nos que “nos últimos dias” haverá pessoas que acumularão grandes “tesouros” à custa da retenção “com fraude” do “salário dos [seus] trabalhadores”(6). Não estamos nós vivendo, precisamente hoje, numa sociedade onde estes contrastes são cada vez mais marcantes? Nunca houve tanta abundância de bens como existe hoje (o número das grandes e pequenas superfícies comerciais, de todo o género, não pára de crescer - superfícies essas que pertencem apenas a um pequeno grupo de ricos que estão acumulando cada vez maiores tesouros), ao passo que o número de pobres e necessitados não pára igualmente de crescer!
Conclusão
Viveremos numa sociedade caótica no tempo do fim? Em termos morais e espirituais, não tenhamos a menor dúvida! Mas em termos económicos, teremos uma sociedade farta, rica, a funcionar em pleno, sobretudo movida pelos enormíssimos capitais financeiros de pessoas sem escrúpulos que enriquecem cada vez mais à custa do empobrecimento real de uma parte muito significativa da população!
Leia com atenção as seguintes palavras de Ellen White onde ela descreve o mundo mesmo antes de terminar o tempo da graça: “Venha quando vier, o dia do Senhor virá de improviso aos ímpios. Correndo a vida a sua rotina invariável; encontrando-se os homens absortos nos prazeres, negócios, comércio e ambição de ganho; estando os dirigentes do mundo religioso a engrandecer o progresso e ilustração do mundo, e achando-se o povo embalado numa falsa segurança, então, como o ladrão à meia noite rouba na casa que não é guardada, sobrevirá repentina destruição aos descuidados e ímpios, e «de nenhum modo escaparão» (I Tessalonicenses 5:3).”(7) (negrito acrescentado).
Se estivermos convencidos de que viveremos numa sociedade completamente caótica no tempo do fim, então poderemos andar hoje “descuidados” e, quem sabe, também “embalados numa falsa segurança” e, quando tal caos acontecer realmente – após o tempo da graça ter terminado – então já será tarde demais para podermos escapar, caso tenhamos procrastinado a entrega total e sem limites da nossa vida a Deus.
O tempo do fim não está ainda para vir! Ele já chegou – e em pleno!
(1) Fernando Chaij, Preparação para a Crise Final, Santo André, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, Segunda Edição, 1975, págs. 10 e 11.
(2) Profecias escatológicas (de escatologia: do grego éskhatos, «último» + lógos, «estudo»): profecias que tratam especificamente do que há-de acontecer no fim do mundo.
(3) Os evolucionistas do tempo do fim estarão seguramente convictos de que os seres humanos estarão a viver a fase mais evoluída da sua história, quando na realidade estarão exactamente ao mesmo nível dos seus antepassados milenares!
(4) Permita-me acrescentar uma outra expressão que aparece na versão bíblica clássica de Almeida: “abundância de ociosidade”. Esta expressão está no lugar da que diz “próspera tranquilidade”. Na verdade, não são realidades antagónicas, uma vez que a História prova que, quando existe na sociedade uma “próspera tranquilidade”, a “ociosidade” é mais abundante. Por outro lado uma sociedade com “fartura de pão e próspera tranquilidade” tem o ambiente ideal para nela se desenvolver grande “soberba”!
(5) Ver: II Timóteo 3:1-5 e 4:3-4.
(6) Ver: Tiago 5:1-8.
(7) Ellen White, O Grande Conflito, Publicadora Atlântico, 1975, pág. 34.